Rodrigo Braga – Hermit’s Desire

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<strong>Texto y fotos de <a href=”http://revistanuestramirada.org/biografias/rodrigo-braga-2″ target=”_blank”>Rodrigo Braga</a> para a revista <em>Sueño de la razón</em></strong>

THERE IS NO ENGLISH TRANSLATION FOR SUEÑO DE LA RAZON ARTICLES Natural do Amazonas, mas há muito residente no nordeste brasileiro, o artista Rodrigo Braga vem abordando, em sua obra fotográfica, questões em grande parte autobiográficas, traduzidas por meio de relações de troca física e simbólica entre seu corpo, elementos e contextos naturais. Em sua recente residência de imersão numa zona rural entre as pequenas cidades de Tabira e Solidão –interior do estado de Pernambuco, distantes 400 km da capital Recife, onde vive–, o artista parte para uma situação de isolamento espacial e temporal amplamente diferente do seu cotidiano de grande cidade para criar a série intitulada Desejo eremita. Embora ainda em pleno processo, ele apresenta, nas próximas páginas, um recorte dessa produção que, deflagrada por uma vontade de isolamento geográfico, acabou assumindo também inesperadas dimensões sociais e humanas, como sugere a carta que Rodrigo escreve a um amigo ao final da primeira parte de sua experiência.

“Escrevo do sertão, entre Pernambuco e Paraíba, onde –você sabe– já estou há dois meses me dedicando integralmente a mim e ao meu trabalho. Por aqui ainda ficarei por mais uma semana para finalizar minha estadia de imersão. Há muito venho sofrendo com a distância do que deixei em Recife, sobretudo minha recém esposa e minha nova casa com ela. Nesse período, Clarissa veio aqui uma vez, mas ficou apenas três dias. Também fiz duas breves visitas ao Recife para matar as saudades e resolver pendências outras, mas é quase como se não tivesse ido, pois minha cabeça permaneceu aqui na caatinga verde e molhada nesse período chuvoso.

Me acomodei numa casa como queria, ou ainda melhor do que imaginava. Aluguei um sítio de onze hectares na zona rural de Tabira, município vizinho a Solidão, lugar que escolhi para rea lizar meus “desejos eremitas”. De fato fico isolado numa casa agradável a três quilômetros da cidade, no alto de um morro de onde posso me deleitar de um belo pôr-do-sol todas as tardes. Aqui posso pensar melhor, sentir melhor, ler algumas coisas, enfim… ter a concentração que preciso para meu processo criativo, já que não encontro mais tantas condições na cidade grande.

<img title=”desejoeremitapeq” src=”http://revistanuestramirada.org/wp-content/uploads/2009/10/desejoeremitapeq.jpg” alt=”Rodrigo Braga” width=”450″ height=”672″ />

Rodrigo Braga

Por aqui o aspecto que mais me impressionou inicialmente foi a crueza (estupidez, diria) da violência de uma terra –para a minha surpresa– ainda sem lei. Parece mesmo que o cangaço e o coronelismo deixaram um legado significativo para o século XXI no nordeste, sem falar na ausência do poder público e da Justiça, é claro. Mata-se por muito pouco, mas não é como a oportunista violência urbana, é algo mais primitivo mesmo. Apesar da pobreza da região, quase não se mata para roubar, mas sim para a defesa de uma suposta honra (traduzida também pelo machismo e pela dominação econômica), o que leva a julgamentos precipitados e a truculentas   à ponta de faca. Contudo, passada essa primeira impressão e receio, fui convivendo com essa carnalidade de maneira mais diluída, sem medos ou somatizações, posto que também passei a enxergá-la no cotidiano, não apenas nos relatos de casos da maneira de pensar e agir do sertanejo, como também na vida animal. Presenciar bois enrijecendo a carne ao serem martelados e sangrados até seu final, ver uma porca abortando e pisoteando seus filhotes moribundos, ouvir o trágico grito de uma rã antes de ser engolida por uma cobra, passar pela experiência de ser acuado por trinta touros no pasto, conviver com escorpiões, cobras e aranhas caranguejeiras na porta de casa, assim como ter recebido a notícia da morte do meu tio e o desespero da minha mãe em Recife, me fizeram refletir ainda mais sobre a morte e a tênue vida na terra. Curioso, vim para cá sobretudo em busca de um sossego e de uma paisagem simbólica que não encontraria onde vivo, mas acabei encontrando novamente o que já refletia em meu trabalho: o inevitável ciclo biológico ao qual todos os seres estão fadados.

Por sorte pude estabelecer uma relação de extrema amizade e confiança com uma família que me acolheu quase como um filho. Ainda em janeiro, chegando na cidade de Solidão em busca de abrigo, sem conhecer nada nem ninguém, acabei por me hospedar em Tabira, já que em Solidão sequer existe uma pousada. A afinidade com o proprietário, sua esposa e suas três filhas foi incomum, quase como um presente nessas terras onde a insensibilidade é costumeira. Em pouco tempo passei do hóspede que dorme nos quartos daquela pousada caseira ao amigo que faz consertos das instalações hidráulicas dos banheiros. As longas conversas e as ajudas mútuas passaram a ser constantes, o que facilitou muito não apenas os aspectos mais práticos dos meus trabalhos, mas –percebo– levou alguma alegria a essas pessoas de raras amizades.

(…)

Meu grande abraço do ainda fértil sertão.

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