Sofia Borges – Investigações fotográficas

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Texto y fotografías – Sofia Dellatorre Borges

- contextualização -

Desde 2005, venho investigando sobre as questões técnicas e as implicações conceituais da fotografia digital em relação à fotografia tradicional. A mudança do aparelho, a meu ver, gerou novos conteúdos e possibilidades formais para a fotografia e conseguiu reforçar a sua qualidade enquanto artifício.

Em outras palavras, o advento do aparelho digital (por esse termo quero dizer o aparelho em toda a extensão: a câmera fotógrafica, o computador e as diversas formas de visualização e propagação da imagem) colaborou para que a imagem fotográfica conseguisse se distanciar ainda mais de uma “imagem natural”, proporcionando que o “real” na fotografia pudesse aparecer mais enquanto objeto, enquanto tema, do que somente como linguagem. Esse artifício (ou função alegórica), estimulado pelas novas possibilidades do aparelho, favoreceu um maior afastamento entre a fotografia e seu referente e reforçou a distância entre realidade e suas representações.

Em 2007 me dediquei a criar imagens fundamentadas pela manipulação da luz, do espaço e do sujeito (fotos do grupo A). Buscava construir fotografias nas quais o assunto central – o sujeito, e o periférico – o espaço, tivessem com suas capacidades expressivas equalizadas mas ao mesmo tempo rompidas enquanto conjunto. Procurava que todos os assuntos (móveis, objetos, figura humana, luz, espaço, etc) tivessem a mesma força narrativa, mas que, enquanto conjunto, não construíssem narrativa alguma. Para tal, criava imagens que contivessem pedaços de várias fotografias reunidas em uma só imagem. A fotografia final era construída a partir de fotografias quase idênticas, variando entre elas os tempos de exposição[1], luz[2] e focos. Em todo meu trabalho, não há nenhuma intenção de tratar a fotografia como um registro, nem de demonstrar as coisas representadas enquanto fato. A construção artificial da luz e da cena permite à fotografia se libertar de uma função predominantemente documental.

A partir de 2008 comecei a submeter também as figuras a esse tempo fragmentado: mais de uma vez a mesma pessoa passou a aparecer na foto (fotos do grupo B). O duplo, que já estava sugerido nas primeiras imagens por meio do auto-retrato, finalmente veio à tona e trouxe com ele a explicitação do que antes ficava somente sugerido nas minhas fotografias: ele questionava o referente e desvinculava espaço e tempo fotográfico de uma forma mais evidente. Contudo, inserir uma mesma pessoa mais de uma vez nas imagens poderia transformar o “duplo” num suposto “tema” da foto. E nunca interessou a este trabalho uma fotografia “temática”, na qual houvesse um elemento determinante que prescindisse dos demais para a construção do assunto, interessa-me mais uma fotografia cujo assunto é mole, corrompido, e na qual os elementos pouco contribuam para a sua definição. É por isso que o duplo está na fotografia, mas não de maneira evidente.

Também em 2008 houve um crescente interesse em inverter a relação entre o sujeito como o assunto central e o espaço como o periférico. O espaço nessas fotografias passou a ser determinante para a construção de um sujeito mais social que psicológico, mas o fato desse embate acontecer num espaço privado e arquitetonicamente reconhecível ainda conferia às figuras uma certa individualidade e complexidade psicológica.

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- sobre a série Sedimentos -

Já em 2009, os assuntos foram aos poucos se distanciando dos contextos domésticos e privados e surgiram outras relações (fotos do grupo C). Os espaços fechados deram lugar à paisagem e a individualidade do sujeito representado esmaeceu-se, deu lugar a um indivíduo inespecífico. Nessas imagens é ao espaço e ao tempo que se delega a função de construir (ou embaralhar) o sentido da fotografia. Da mesma maneira a aparição da figura humana (duplicada ou não) ganha outra conotação: as imagens prescindem de indivíduos, nelas surgem somente figuras que vagam imprecisas por situações pouco conclusivas. Tampouco o observador precisa se aprofundar na figura para obter dela alguma profundidade psicológica. Todos os elementos estão dispostos na superfície fotográfica e, feito um mapa, cada parte ganha uma autonomia específica. Nada mais se presta a resguardar o sujeito e a  sua individualidade. Nessas imagens, a relação fundamental é entre o tempo e o espaço[3] e o indivíduo surge (ou desaparece) a fim de reforçar uma relação imprecisa e amplificadora.

A imagem em que isso acontece de maneira mais contundente é, ao meu ver, a ‘Ruína’, na qual o espaço por si só já está tão fragmentado e os tempos tão superpostos que é como se eles prescindissem da figura humana para que o observador se projete para dentro da imagem. Nessa fotografia, toda superfície está em ruínas, não só o que está representado. Ela é ambígua e parece acolher uma decadência. É tão expulsiva que exigiu que seus personagens fossem retirados da cena, é como se a paisagem os tivesse engolido, ou talvez os superado. Aqui, o observador se projeta por si só na imagem, mas não entra plenamente dentro dela. Para mim, o tempo dessa fotografia é tão espesso (por manipulações no computador mas também pelo seu próprio caráter) que impede ao observador se projetar para dentro da imagem, ele só faz observar algo denso e fragmentado

- conclusão -

Em todo o percurso dessa pesquisa, independente das ferramentas utilizadas, o objetivo sempre foi o de criar uma temporalidade inexata, que conseguisse se afastar do instante fotográfico e que, por vezes, se aproximasse da construção arbitrária do tempo em uma pintura ou, ainda, em uma obra literária.


[1] Em muitas fotos, cada objeto (ou conjunto de objetos) é submetido a um tempo de exposição específico. Por exemplo, nas fotos apresentadas como portifólio, o sujeito, que constantemente está parado, é invariavelmente submetido a um tempo de exposição nunca menor que 15 segundos. Nessas fotos, todo movimento e qualquer apreensão do instante é falso e construído. No entanto, em algumas fotos, os demais objetos da cena (por exemplo os móveis)  foram expostos a um tempo de exposição diferente da do sujeito central. Dessa maneira, não há o registro de um tempo homogêneo e estável. Cada objeto foi capturado a partir de uma coerência isolada e arbitrária. O que acontece na imagem final é a reunião (através da manipulação pelo computador) de várias fotografias com tempos diferentes.

[2] A arbitrariedade da luz sobre cada objeto acontece mais ou menos da mesma maneira: a luz vista na fotografia é na verdade um mosaico de diferentes luzes (e, por conseqüência, cores) obtidas através de várias fotografias tiradas de uma mesma cena. Também com o uso do computador, é possível tratar a luz (e a cor da luz) que ilumina parte do corpo, por exemplo, de maneira absolutamente diferente da luz que ilumina o tecido da roupa ou da que ilumina o fundo da cena. Essa ato de compor uma imagem pela soma de várias, se levado a seu extremo, poderia resultar numa imagem esquizofrênica e claramente artificial. A minha escolha por deixar essa artificialidade velada, de forma que não seja necessariamente percebida, é exatamente a escolha de deixar cada objeto posto em lugar suspenso e não impositivo.

[3] Nas “paisagens” o procedimento para a obtenção da imagem final ainda é o mesmo: várias fotografias com diversas temperaturas de cor, tempos de exposição, focos e posições das figuras são usadas como partes para a construção de uma só imagem.

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